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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mente que Só Mente



Estar só, de corpo e mente.
Mais de corpo do que de mente.
A mente só viaja ao encontro.
Pensamento vai distante.
Só a mente voa e encontra.
Pra não sentir-se só, a imaginação mente que supre a mente.
Somente o corpo, que não mente, permanece só.
O que pensar da mente, se ela só mente?
Mente pra si só que nunca fica só.
Planta a semente que brota e acompanha.
Semente que supre e brinca de ser mente.
O corpo plantado que não brota.
Experimenta o auto toque e se conforta.
Se às vezes me comporto como demente
Não me proteja de mim nem do mundo lá fora
Não me acolha, não me abra a porta
Não me acorde, não estou dormente
Não me cure, não estou doente
Não me ame, não sou semelhante
A nada exceto uma linha torta escrita no livro que já não importa

Texto: Scherer Sávio e Maroka
29/10/2013

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Tentando Explicar o Inexplicável

 
 
Às vezes tento explicar o inexplicável,
mas de tanto tentar achar uma explicação,
percebo que inexplicavelmente algo acontece.
 
Da mesma forma que explico
mas não sei ao certo se há uma explicação,
ou se o que quero explicar é explicável.
 
Texto: Scherer Sávio
25/10/2013

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Diferença da Indiferença




A diferença da indiferença,

é que alguns percebem e fingem não perceber.

Alguns não percebem porque a diferença não faz diferença.

Ser diferente é normal.

Outros percebem porque as diferenças sobressaem ao diferente,

e a indiferença passa ser diferente.



Texto: Scherer Sávio
24/10/13

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A Falta de Lentes Complica

No empurra-empurra, o homem fala:
- Um passinho mais à frente, por favor.
Em pé, pendurado feito pernil de açougue.
O passageiro tenta não olhar, mas algo brilha.
Logo ali , no banco, o rosto redondo parecia observar o recém chegado.
Vasta barba, face estranha e assustadora.
Tenta ajeitar os óculos e percebe que os esqueceu.
Olha fixamente, com a testa franzida.
Retribuindo a encarada com olhar de mau.
Mas aquela face não recua.
Enfezado parte pra cima.
Chega mais perto e percebe.
Foi um engano.
O que ele via era uma careca reluzente.
Com borda.

Texto: Scherer Sávio
21/10/13



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Praça

A praça, da água que passava e hoje não passa.
A água fica no lago, que a mulher arrisca o mergulho, e a garça pesca ao amanhecer.
Do monumento, que em outros tempos, quando observava de longe, imaginava ser a escultura de um monstro desconhecido.
Das duas torres em formato de tobogã, que na loucura poderia brincar de escorregar, mas na sanidade, nem pensar, poderia se esborrachar.
Do prédio redondo, que desorienta. Uma bússola seria bem vinda.
Da ponte  de pedra sustentada por três pilares em arco, construída por humanos comercializados feito mercadorias. Testemunha de um passado sofrido, e hoje quase sem sentido, permanece ali exuberante.
Arroio do curso alterado que dá espaço para as edificações e vias.
Um lindo cenário, transformado e criado pelo homem.
A garça é fotografada enquanto o cão conduz o dono.
No gramado, pegando sol, roupas encardidas mas lavadas.
Sob o viaduto há fumaça, e o grupo bem próximo se aquece.
Na parede o texto gravado:
"Marcha de sangue é a marcha da morte".
E no prédio o que se vê?
"Ou caminha com Deus ou dança com o diabo".

Manifestações distintas que expressam um momento, um pensamento, um sentimento.

A praça, que mistura passado e presente.

Para muitos um show. 
Para poucos um chão. 
Que presente!

Texto: Scherer Sávio
09/10/13

Desejos

O moço chega pela primeira vez e vê tantos hamsters suando, com olhar fixo no cronômetro ou ao nada. Se juntasse o tempo e o percurso de todos talvez pudesse chegar ao litoral.
Ah litoral! como ele queria estar sob o sol, apreciando a brisa e ouvindo o barulho das ondas quebrando ao longe sem parar. O sol que arde o corpo, que há tempos não sente o toque do amor. Amor desejado, que sonha da forma mais ávida e entristece ao lembrar que já o teve mas não correspondido.
Gente bonita, mas cada um em seu mundo, nem um sorriso para amenizar o clima. Som alto, urros dos "fisiculturistas", que põe carga muito maior do que podem suportar, talvez para impressionar o vizinho, ou para chegar às formas desejadas.
Desejos e desejos, são tantos, mas a vida é feita de escolhas. Escolha que o moço que procura um lugar entre os hamsters que correm e caminham sem sair do lugar, e não sabe ao certo se o que procura é o lugar, ou preencher o vazio, que os bombados preenchem com massa.
Para aliviar a ansiedade, quem sabe uma massa, com belo molho de tomate, que resulta na borda de catupiry que acumula no abdômem.
Não, esqueça da massa, e vai para o aparelho queimar, aliviar a ansiedade suando, cansando, e pensando que ali entre tanta gente bonita sempre há uma esperança de que o vazio seja preenchido.
Em tempos que a carcaça está mais bem avaliada que o conteúdo. Que a aproximação acontece primeiro pelo que se vê e não pelo que se sente, é melhor dedicar o tempo, para pelo menos chegar perto da forma perfeita e participar da concorrência de maneira mais justa.
Afinal, todos estão ali pelo mesmo motivo.
Então, ele procura uma vaga e corre, mas só corre porque aumentou a velocidade do aparelho, pois a vontade era de estar apreciando a natureza, na praia, acompanhado de um novo amor.

Texto: Scherer Sávio
Set/13

Dor da Perda

A ave sobrevoa ao olhar da mulher, que da sacada, olhos atentos, triste e amargurada, pensa no amante que se foi, e deixou o gosto nos lábios sedentos do beijo molhado, da boca que arde, e não namora há tempos. A árvore cortada, contrariada, a mulher pensa em colar e subir no galho para apalpar o ninho, ninho de amor que transbordava em prazer, antes da ave ficar tonta, e voar de um lado para o outro, querendo descer. Sente que o gosto vira ódio, que vira sinal de esquecimento, fingindo que o amor, nunca aconteceu. O toque forte da mão, os beijos no pescoço que fazia enlouquecer, enquanto a ave cantava e pousava no ninho que desapareceu, assim como o homem que partiu. A estrada ela via, depois que o mato caiu, mas não via seu amor quando vinha, porque a árvore encobria a via, e protegia do sol pra não aquecer. O comportamento é perturbador e a mulher percebe que a casa finda, mas a ave não brinda pois corre em busca de outro lar, talvez na próxima esquina. O sol se põe e as estrelas ofuscadas surgem aos poucos, e no mesmo ângulo percebe que a imagem do céu não muda, mas o cenário abaixo dos olhos mudou, já que os insetos e répteis junto com os pássaros fugiram levando o ruído, enquanto a mulher tenta mudar a forma de viver, sentindo o efeito do tempo nas marcas profundas da face cansada, sem esquecer. Pensa em encontrar alguém que preencha o vazio no peito, que já foi travesseiro e conforto quando o amante sem preconceito chorou e implorou pelo amor que resistiu mas cedeu. Pessoas e bichos sem qualquer aviso, de uma hora para outra, sentem no fundo a dor da perda, seja sentimento, presença, amor ou residência, motivada por um ser egoísta que não pensa, e o que pensa é na sua própria vivência.

Texto: Scherer Sávio
Set/13