A ave sobrevoa ao olhar da mulher, que da sacada, olhos atentos, triste e amargurada, pensa no amante que se foi, e deixou o gosto nos lábios sedentos do beijo molhado, da boca que arde, e não namora há tempos.
A árvore cortada, contrariada, a mulher pensa em colar e subir no galho para apalpar o ninho, ninho de amor que transbordava em prazer, antes da ave ficar tonta, e voar de um lado para o outro, querendo descer.
Sente que o gosto vira ódio, que vira sinal de esquecimento, fingindo que o amor, nunca aconteceu.
O toque forte da mão, os beijos no pescoço que fazia enlouquecer, enquanto a ave cantava e pousava no ninho que desapareceu, assim como o homem que partiu.
A estrada ela via, depois que o mato caiu, mas não via seu amor quando vinha, porque a árvore encobria a via, e protegia do sol pra não aquecer.
O comportamento é perturbador e a mulher percebe que a casa finda, mas a ave não brinda pois corre em busca de outro lar, talvez na próxima esquina.
O sol se põe e as estrelas ofuscadas surgem aos poucos, e no mesmo ângulo percebe que a imagem do céu não muda, mas o cenário abaixo dos olhos mudou, já que os insetos e répteis junto com os pássaros fugiram levando o ruído, enquanto a mulher tenta mudar a forma de viver, sentindo o efeito do tempo nas marcas profundas da face cansada, sem esquecer.
Pensa em encontrar alguém que preencha o vazio no peito, que já foi travesseiro e conforto quando o amante sem preconceito chorou e implorou pelo amor que resistiu mas cedeu.
Pessoas e bichos sem qualquer aviso, de uma hora para outra, sentem no fundo a dor da perda, seja sentimento, presença, amor ou residência, motivada por um ser egoísta que não pensa, e o que pensa é na sua própria vivência.
Texto: Scherer Sávio
Set/13
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